quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Nina

Nina acordou tonta, sentindo a cabeça girar e o mundo tremer ao seu redor. As lembranças da bebedeira que assolaram-na na noite anterior vieram como um balde d'água no seu rosto fino e gentil.
Com muito esforço se levantou, os um metro e sessenta de seu corpo chocalhados e misturados aos cabelos loiros (naturais, diz ela), locomoveram-se até o banheiro, mais precisamente ao vaso sanitário. Enquanto colhia os frutos da ressaca, tenta se lembrar do que havia acontecido.
-Porra...
Pelos olhos cansados percebeu a golfada escura, cor de sangue, que dera. O que aconteceu com ela? Levantou-se e olhou no espelho. Seu cabelo estava desarrumado, normal após certas noites; os olhos caídos pelo álcool, a expressão não era das melhores.
Piscou.
O grito foi estrondoso. "O que aconteceu? Quem fez isso? O que sou eu?" O rosto estava desfigurado. Um dos olhos não se encontrava nas órbitas, a boca se estendia de uma orelha a outra, os cabelos abrigavam falhas e escondiam um corte decorrente de uma marretada.
Nina correu para o quarto, mas paralisou à porta. Ela se via na cama, estendida de uma forma não natural. Ao seu lado, um homem dormia profundamente. Ele usava uma máscara de palhaço mal feita, como se fosse de papel. Na palma da mão estava um olho cor de caramelo. O olho de Nina.
Ela ainda estava perplexa quando um vulto se formou ao seu lado. Um homem que parecia ter uns 30 anos, cabelos curtos e cavanhaque. Usava um casaco de couro que envolveu Nina num abraço reconfortante.
E assim foram.

domingo, 13 de novembro de 2011

A quanto tempo!

Bom, já tem um bom tempo que eu não posto aqui né?
Bom, na verdade eu só passei pra postar uma analise dos personagens de uma HQ escrita pelo meu primo Raphael (vulgo @Lorofous ) y yo (vulgo @pedrofowl ).
A HQ se chama "O Inseto" e ficara pronta assim que eu tiver tempo pra desenhar. Invejem o mini estudo de personagens por enquanto...
Flw!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Era Carnaval

Era carnaval. Época de ser feliz. O jovem Cérgio estava fantasiado de malandro, aquele das antigas, de terno branco e lenço de seda (falso). No meio da multidão cantante e carnavalesca, seus olhos confetinados avistaram a mais bela visão de sua breve vida.
Tal visão, vestida de vermelho e com uma auréola pendurada acima da cabeça (uma contradição,não?), retribuía o olhar, e aguardou pacientemente enquanto Cérgio a alcançava. Uma paixão ardida e gostosa criou-se no peito do jovem e ele viu-se frente a frente com o amor de sua vida.
Ele puxava assunto falando sobre carnaval, e tudo que ela retribuía era com sorrisos. Parecia até que não falava português, mas Cérgio percebia que aquele sentimento era mútuo. Parecia até criança, daquelas que se apaixonam a primeira vista.
Ao final do baile, depois de algumas conversas, bebidas e amassadas de roupa, os enamorados se despediram e seguiram para suas respectivas casas. Um silencioso "eu te amo" escapou dos lábios de Cérgio nesta curta despedida e ele observou seu coração partir de carona com a moça em vermelho.
Quando chegou no apartamento sujo e fedido no bairro do Catete (singelamente chamado de casa)decidiu iniciar sua busca pela linda dama que roubara-lhe o coração. Porém, não a viu nos dias seguintes, e seu exaustivo trabalho de escritor de anedotas para jornais de segundo calão tomava-lhe o tempo que era necessário.
E assim foram-se semanas e meses, enquanto nosso galanteador definhava por amor, pensando nas últimas palavras ditas a menina enamorada, que se veriam no próximo bloco. Mal sabia ele que esse bloco, para sua tristeza, só sairia no próximo carnaval.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nosso herói - Homenagem à Steve Jobs(1955-2011)

Ele se sentou na sombra feita pela árvore. Olhou para os lados, pra cima, viu o céu. Retirou os óculos e esfregou as lentes antigas na camisa.
Era um dia monótono, e nosso personagem precisava de uma ideia. Mas de onde tirar o que seria a fonte do seu sustento? De onde surgiria a vida, o projeto, o pecado.
Um barulho seco assustou nosso herói. Ele recolocou os óculos e viu o futuro no singelo reflexo do próprio rosto. Pegou a origem dos pecados, esfregou na blusa preta e mordeu uma parte. Levantou-se lentamente, olhou para a “terra sem nome” e planejou o próximo passo.
Com a maçã mordida em mãos, caminhou para lugar nenhum. Para o futuro.

O Sorriso de Amanda

Amanda era linda. Tinha quase a minha altura, cabelos negros e curtos, a pele morena e olhos verdes. O sorriso era divino, uma das minhas partes preferidas. Ela era extrovertida, amiga de todos, exatamente o oposto as minhas atitudes. Aquela garota roubou meu coração.
Naquele dia, tínhamos acabado de sair da sala de aula quando eu trombei com ela, sem intenção. Pensei em tudo que podia fazer na hora, mas só sorri com vergonha. Idiota! Era agora! Uma onda de coragem esquentou meu corpo e me virei para ela com uma faísca nos olhos.
-Amanda! – Ela se virou com um sorriso irradiante – Tem algum plano pra esse final de semana?
O resto você já sabe. Ela respondeu que não, sorriu avermelhada quando eu falei do cinema e nos encontramos na entrada do shopping. Fiquei sem ação por quase a sessão toda, e quando eu menos esperava ela veio e encostou os lábios adocicados nos meus num gesto de amor mutuo. Pelo resto da semana foram se dando trocas de olhares, uns beijos escondidos, e após um mês resolvemos firmar o namoro.
Por quase um ano foi essa alegria, os sorrisos lindos de Amanda, os beijos gostosos, o amor que eu sentia por aquela menina aumentava a cada dia. Por fim, um dia decidimos botar nosso amor a prova e entramos no túnel de amor de uma cama de Motel. O suor nos grudava,, os gritos ecoavam pelo quarto, e no final, ela suspirou arfante no meu ouvido:
-Eu te amo.
Meus olhos se abriram como de um sonho. Minha história de vida estava escrita, eu só precisava dar o primeiro passo.
-Amanda! – Ela se virou como no sonho, mas eu congelei.
-Sim? – O sorriso brilhava com a iluminação do meio-dia.
-Nada, esquece.
Me virei e comecei a andar na direção contraria a do amor da minha vida. Meu coração em frangalhos, minha autoestima escorrendo pelos pés, e minha cabeça latejante.
De novo.

A Estrada

A menina estava parada no asfalto da estrada. Já era noite e seus olhos ardiam, mesmo que úmidos, de tanto chorar. Olhava para os lados assustada, sozinha na estrada mal iluminada, onde mal se via seus cabelos vermelhos desgrenhados e nem suas mãos surradas e arranhadas.Um ponto brilhoso vinha rápido em sua direção, logo se transformando em dois olhos monstruosos, um monstro que roncava forte, com dentes prateados e uma ferocidade que não se via desde a pré-história. O Dodge cantou seus pneus brancos e lisos a poucos metros da menina.
O homem de cerca de 1,80m saiu do carro e parou a frente da ruiva, com os olhos arregalados e a boca escancarada, tentando emitir um som qualquer. A menina caminhou lentamente até o carro e sentou-se no banco de carona, fazendo com que o homem a seguisse, ainda assustado. Permaneceram parados até ele girar a chave na ignição e roncar o motor V-8.
-Qual seu nome?-ele perguntou, dessa vez, calmo.
-Eu...Eu não lembro...-ela sussurrou trêmula. Seus olhos estavam ainda marejados, e a boca contorcida, como se murmurasse uma oração.
Continuaram em silêncio por mais alguns minutos até o homem esticar a mão para ligar o antigo rádio do carro. Tocava “Starway to Heaven” do Led Zeppelin, e o domador da fera de quatro rodas balançava a cabeça com o ritmo da música. Enquanto o violão se estendia nos alto-falantes, ele via a menina fechar os olhos e adormecer.
Ela via no sonho uma vizinhança do interior do país, e também via uma criança de cabelos loiros brincar no jardim de casa. Olhou para o lado e viu a mesma menina com treze anos, e os cabelos da cor de fogo se embaraçando com os de um menino alto e sem rosto. Via também o Dodge, azul como o céu, com listras brancas ao longo da carroceria, cantar seus pneus brancos a sua frente, e o menino sem rosto, transformado em homem, bater com força a porta do carro, e via um clarão a sua procura.Ela se sentia mais leve, como nas nuvens, e a música se estendia em sua cabeça, se repetindo infinitamente, como se acompanhasse ela.
Para sempre.

A mosca

A água fervia ao meu lado, com seu vapor fétido subindo até o teto do meu apartamento mofado e alimentando os fungos que ali jaziam. O feijão queimava na extremidade do fogão, lembrando o cheiro da carne decomposta e carbonizada. A torneira não parava de jorrar litros e litros de água numa bacia que já estava cheia, e seguidamente transbordava as loucuras do interior.
Meus olhos vidrados percebiam o voo chato de uma mosca em busca dos restos mortais em minha cozinha. “Um pouquinho do feijão, se permitir”, ela pensa. “Um tanto do arroz, por favor”, ela pede. “Que tal uma pitada da sua vida”, ela implora.
Os vizinhos esmurram a porta e gritam meu nome há horas, mas eu não posso responder. Eles já chamaram a polícia, que os rejeitou respondendo que não era assunto deles. Os bombeiros chegariam a poucos minutos para arrombar meu querido lar, agora destruído.
A mosca parou ao meu lado.
Alçou voo.
Parou no meu olho, e seus milhares de globos oculares fitaram minha retina detritada pelo pouco tempo que me restou. Eu olhava a cena de cima, como um anjo que zelava pelo seu protegido. Um homem, ou melhor, um ser esperava ao meu lado, com os olhos fechados como num eterno sono. Eu sabia que me levaria a algum lugar.
A mosca virou sua minúscula cabeça para a porta, que agora estava sendo abatida por homens de jalecos pretos e amarelos. A minúscula criatura apontou seus milhares de minúsculos olhos para o meu putrefato olho e começou a voar.
O ser que estava do meu lado abriu os olhos (totalmente pretos, menos as pupilas por serem amarelas); e viu a mosca voar pela janela parcialmente aberta. Discretamente ele sorriu e foi sumindo enquanto os homens de preto e amarelo entravam no meu antigo lar.
Agora eu via o mundo com milhares de facetas. Olhares de mosca. Eu não via mais a mosca.
Eu era a mosca.