A menina estava parada no asfalto da estrada. Já era noite e seus olhos ardiam, mesmo que úmidos, de tanto chorar. Olhava para os lados assustada, sozinha na estrada mal iluminada, onde mal se via seus cabelos vermelhos desgrenhados e nem suas mãos surradas e arranhadas.Um ponto brilhoso vinha rápido em sua direção, logo se transformando em dois olhos monstruosos, um monstro que roncava forte, com dentes prateados e uma ferocidade que não se via desde a pré-história. O Dodge cantou seus pneus brancos e lisos a poucos metros da menina.
O homem de cerca de 1,80m saiu do carro e parou a frente da ruiva, com os olhos arregalados e a boca escancarada, tentando emitir um som qualquer. A menina caminhou lentamente até o carro e sentou-se no banco de carona, fazendo com que o homem a seguisse, ainda assustado. Permaneceram parados até ele girar a chave na ignição e roncar o motor V-8.
-Qual seu nome?-ele perguntou, dessa vez, calmo.
-Eu...Eu não lembro...-ela sussurrou trêmula. Seus olhos estavam ainda marejados, e a boca contorcida, como se murmurasse uma oração.
Continuaram em silêncio por mais alguns minutos até o homem esticar a mão para ligar o antigo rádio do carro. Tocava “Starway to Heaven” do Led Zeppelin, e o domador da fera de quatro rodas balançava a cabeça com o ritmo da música. Enquanto o violão se estendia nos alto-falantes, ele via a menina fechar os olhos e adormecer.
Ela via no sonho uma vizinhança do interior do país, e também via uma criança de cabelos loiros brincar no jardim de casa. Olhou para o lado e viu a mesma menina com treze anos, e os cabelos da cor de fogo se embaraçando com os de um menino alto e sem rosto. Via também o Dodge, azul como o céu, com listras brancas ao longo da carroceria, cantar seus pneus brancos a sua frente, e o menino sem rosto, transformado em homem, bater com força a porta do carro, e via um clarão a sua procura.Ela se sentia mais leve, como nas nuvens, e a música se estendia em sua cabeça, se repetindo infinitamente, como se acompanhasse ela.
Para sempre.
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