A água fervia ao meu lado, com seu vapor fétido subindo até o teto do meu apartamento mofado e alimentando os fungos que ali jaziam. O feijão queimava na extremidade do fogão, lembrando o cheiro da carne decomposta e carbonizada. A torneira não parava de jorrar litros e litros de água numa bacia que já estava cheia, e seguidamente transbordava as loucuras do interior.
Meus olhos vidrados percebiam o voo chato de uma mosca em busca dos restos mortais em minha cozinha. “Um pouquinho do feijão, se permitir”, ela pensa. “Um tanto do arroz, por favor”, ela pede. “Que tal uma pitada da sua vida”, ela implora.
Os vizinhos esmurram a porta e gritam meu nome há horas, mas eu não posso responder. Eles já chamaram a polícia, que os rejeitou respondendo que não era assunto deles. Os bombeiros chegariam a poucos minutos para arrombar meu querido lar, agora destruído.
A mosca parou ao meu lado.
Alçou voo.
Parou no meu olho, e seus milhares de globos oculares fitaram minha retina detritada pelo pouco tempo que me restou. Eu olhava a cena de cima, como um anjo que zelava pelo seu protegido. Um homem, ou melhor, um ser esperava ao meu lado, com os olhos fechados como num eterno sono. Eu sabia que me levaria a algum lugar.
A mosca virou sua minúscula cabeça para a porta, que agora estava sendo abatida por homens de jalecos pretos e amarelos. A minúscula criatura apontou seus milhares de minúsculos olhos para o meu putrefato olho e começou a voar.
O ser que estava do meu lado abriu os olhos (totalmente pretos, menos as pupilas por serem amarelas); e viu a mosca voar pela janela parcialmente aberta. Discretamente ele sorriu e foi sumindo enquanto os homens de preto e amarelo entravam no meu antigo lar.
Agora eu via o mundo com milhares de facetas. Olhares de mosca. Eu não via mais a mosca.
Eu era a mosca.
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